Análise do curso "Tecnologia da Informação e Comunicação" (SENAI - ES) sob a perspectiva CTS
Em primeiro lugar, é preciso relembrar o que diz a perspectiva CTS (Ciência, Tecnologia e Sociedade). Segundo Pinheiro et al. (2007), na perspectiva CTS há um esforço
conjunto para aproximar a ciência e a tecnologia das questões sociais,
apontando para uma não neutralidade das primeiras. É um erro considerar a
ciência e a tecnologia como coisas prontas e perfeitas, pois não raro elas
representam um emaranhado de interesses que nem sempre beneficiam a maioria da
população, a qual se encontra marginalizada e alienada. Daí vem a necessidade
de formação crítica dos cidadãos a respeito dos temas ciência e tecnologia,
para se posicionar de maneira emancipada e tomar decisões importantes, que
influenciarão não apenas o seu futuro, como também o futuro das gerações
posteriores. Para isso, é preciso haver uma democratização da ciência e tecnologia,
não apenas no sentido de acesso aos seus trabalhos materiais ou imateriais, mas
também no sentido de abertura à discussão, a fim de compreender a ciência e a
tecnologia em seus contextos históricos, culturais, sociais, políticos e
econômicos. Não somente os especialistas ou políticos devem ter a democracia da
palavra, mas sim todos os cidadãos, que têm o direito de receber uma formação
que contribua para a compreensão da ciência e da tecnologia, o que facilitará,
de fato, com que o debate se encaminhe para uma sociedade mais justa e
igualitária, com melhores condições de compreender e resolver os seus conflitos
(PINHEIRO et al., 2007).
No ensino de Ciências, a perspectiva
CTS não é nova (tem origem nos anos 70), e busca questionar a maneira
desvinculada da realidade social de estudar a natureza, os ranços teoria versus prática e pensamento versus execução; e a divisão do
conhecimento (em todos os níveis). A perspectiva CTS no ensino de Ciências tem
ainda entre seus objetivos democratizar o conhecimento científico e
tecnológico. Daí a importância de discutir com os estudantes a complexidade do
contexto da ciência e da tecnologia, as quais devem ser vistas não como
"deuses", mas sim como criações humanas. Compreender a ciência e a
tecnologia dessa forma é um trabalho de mediação complexo a ser desenvolvido
pelo professor, em que os estudantes precisam entender o que antecede e o que se
torna consequência, tendo em vista as inúmeras variáveis sociais, ambientais,
políticas, econômicas, etc. Dessa forma, o estudante poderá começar a adotar
uma postura crítica, estabelecendo ligações complexas a fim de buscar novas
soluções para os problemas sociais. Isso perpassa o ambiente escolar e
contribui para desenvolver no aluno um espírito ativo, participativo, de
verdadeiro investigador e inquiridor. Além disso, é a partir de sua realidade que
o estudante poderá fazer essas ligações complexas a fim de compreender e
superar os problemas da sociedade como um todo. Nesse sentido, o estudante e o
professor serão parceiros, aprenderão e reconstruirão juntos. O professor não
será mais o "deus supremo do conhecimento", "detentor e doador
de toda a sabedoria", mas o estudante é que será o protagonista,
trabalhando em conjunto com o seu professor (PINHEIRO et al., 2007).
Enfim, sob a perspectiva CTS, o curso "Tecnologia da Informação e Comunicação" (SENAI-ES) ainda tem a melhorar. Porém, alguns aspectos muito importantes foram identificados no curso, como é o caso do espaço dedicado à apresentação do tema "Democratização da Informação", essencial dentro da perspectiva CTS.
Antes de tudo, entretanto, é preciso ressaltar aqui que o curso tem sua análise voltada para o mercado de trabalho. Poucas vezes foi feita uma análise crítica para questionar os interesses mercadológicos, que funcionam em prol de uma minoria especializada, em detrimento da maioria da população, que não recebeu as condições mínimas para uma formação emancipada (PARO, 1999). Conforme visto anteriormente, numa perspectiva CTS, essa criticidade (não no sentido corriqueiro da palavra) é primordial porque o estudante precisa ser preparado para adotar uma postura emancipada frente aos constantes problemas e desafios que surgem nas relações entre ciência e tecnologia e sociedade.
Outro aspecto que não foi bem abordado no curso sob a perspectiva CTS é a questão da contextualização, em seus diferentes aspectos (social, cultural, político, econômico, ambiental, etc.). Como o curso é muito (super, hiper, mega, ultra) desatualizado, essa questão ficou bastante prejudicada, pois o estudante precisa compreender onde está inserido para, enfim, começar a tomar um posicionamento crítico e construir-reconstruir, em parceria indissolúvel com o seu professor, novas soluções para a sociedade com o uso da ciência e da tecnologia. É preciso acrescentar que a contextualização não acontece apenas em termos gerais (mundo inteiro). Nesse ponto, o curso foi "feliz" ao abordar o nosso país; no entanto, além disso não ser feito de maneira intensa em todos os módulos, não é suficiente para que o estudante compreenda a complexidade da sua realidade, pois os aspectos regionais e locais ficam deixados de lado. Os idealizadores dos cursos EaD devem ter isso em mente e, sempre que possível, precisam intensificar a abordagem desses aspectos.
Apesar de geral, logo na primeira aula do módulo 1 (sistemas de informação), há um "exemplo" de contextualização interessante:
A Tecnologia da Informação e Comunicação (TIC) a cada dia está mais presente na vida cotidiana das pessoas e nos processos produtivos das organizações. Muitas vezes usamos a tecnologia para facilitar nossas atividades sem ao menos perceber que ela existe. Por exemplo, você já imaginou a quantidade de tecnologia empregada nos celulares? Normalmente nós os utilizamos sem parar para pensar nisso.
Como já é sabido que a reflexão é um ponto-chave na perspectiva CTS, essa breve introdução estaria no caminho certo. Estaria... isso porque no restante do módulo essa faísca de criticidade não foi muito bem alimentada, o que tornou o trecho algo desconexo, estancado.
Ainda na primeira aula do módulo 1 os autores do curso colocam um quadro de evolução dos sistemas de informação, desde os anos 70 até os anos 2000 (que velho...). Esse quadro facilita compreender o quanto sociedade e ciência e tecnologia se transformaram reciprocamente ao longo dos anos; porém, aqui a exposição continua a ser ainda num tom corporativista.
Na segunda aula do primeiro módulo, o curso traz uma diferenciação interessante entre os conceitos de dados, informação e conhecimento. Colocar esses pontos desafiadores faz com que o professor e os seus estudantes questionem o que sabem, se realmente aquilo que "aprenderam" faz sentido para eles. No contexto CTS, esse é um processo fundamental de construção-reconstrução dos conhecimentos para a superação em prol de uma nova sociedade.
Ao tratar sobre gestão do conhecimento, é exposta a seguinte citação:
A gestão do conhecimento é um campo multidisciplinar, cujos aspectos envolvem a gestão da informação, a Tecnologia da Informação, a comunicação interpessoal, o aprendizado organizacional, as ciências cognitivas, a motivação, o treinamento e a análise de processos. Trata-se de um enfoque integrado para identificar, capturar, gerenciar e compartilhar todo o ativo informacional das organizações, incluindo documentos, bases de dados e outros repositórios, bem como a competência individual dos trabalhadores (THIVES JR., 2000).
Nessa citação (apesar da confusão com o termo utilizado), está implícito outro ponto importante da perspectiva CTS: a interdisciplinaridade. No ensino, segundo Pires (2008), é buscada a formação integral do educando, que ultrapassa a mera comunicação de metodologias e técnicas entre disciplinas, em busca de uma consciência crítica em relação à ordem das coisas no mundo capitalista. Nesse sentido, a interdisciplinaridade não é um ataque ao conceito das disciplinas, mas sim à prática disciplinar estancada, rígida e fixa.
Muito complicado diferenciar os sistemas de gerenciamento da aula 3... Porém destaquei nessa aula a exemplificação interessante que é feita sobre a indústria automobilística na evolução e aplicação das TIC's.
O módulo 2 foi interessante ao trazer a história sobre a origem do computador. Por outro lado, poderia explorar melhor melhor exemplos da realidade dos estudantes de novos recursos tecnológicos ao abordar os conceitos de hardware e software.
Vejam essa citação engraçada (não estamos mais no futuro, estamos na era do pós-futurismo - curso desatualizado):
No futuro, acredita-se que os aparelhos sem fio serão variados, unindo diferentes dispositivos, dependendo do perfil do seu usuário. Câmera, tocador de música, navegador de Internet, palmtop, poderão ser encontrados em diferentes combinações, por meio de uma equação ainda não resolvida. Algo parecido com o computador transformar-se em um celular devido ao seu tamanho cada vez mais compacto e à sua possibilidade de enviar voz, além de dados ou, no caminho inverso, o celular transformar-se em um pequeno computador, pois estão cada vez mais inteligentes, absorvendo funções variadas.
Na aula 2 desse módulo foi muito importante contextualizar a origem e a história da internet, inclusive no Brasil. Com relação ao bate-papo/grupos de discussão, se estivesse atualizado, o curso poderia ter feito uma explanação interessante a respeito do boom dos novos aplicativos tecnológicos.
E é nesse ponto que quero chegar... aqui acredito que os autores do curso, apesar da falta de atualização, conseguiram demonstrar a perspectiva CTS de maneira mais concentrada, ao tratar sobre a democratização da informação. Primeiro eles começaram tratando da integração que o computador pode facilitar. Isso me lembra a questão da inteligência coletiva e da árvore do conhecimento, de Pierre Lévy. Na citação abaixo isso fica bem interessante:
"No terminal, enquanto mãos de dois ou três meninos estão sobre o mouse, um deles grita: 'já sei como se faz!'. A todos ficam quebrando a cabeça para saber aonde se vai, despertados pelas possibilidades da informática. União. Todos querendo aprender juntos."
A visão de que não adianta ensinar as pessoas o como fazer, mas sim o posicionamento crítico, fica bem explícito abaixo:
Solucionar a exclusão digital não significa somente dar a cada pessoa um computador com acesso à Internet. Mais do que simplesmente ensinar a técnica da informática, o trabalho deve estabelecer pontes para aproximar mundos que, socialmente, encontram-se distantes. Neste horizonte que se descortina é possível vislumbrar o resgate mais importante do exercício da cidadania. A tecnologia, em si, tem o poder de amplificar o conhecimento. Pode também ampliar a diferença social em função da falta de acesso da população menos favorecida aos recursos tecnológicos. Por isso a necessidade de um trabalho consistente para evitar um cenário social com diferenças ainda maiores.
Logo em seguida, o curso apresenta o fato de que algumas discriminações são deixadas de lado no mundo virtual, pelo fato de os usuários serem mais conhecidos por suas mentes do que por suas características físicas externas. Bem, acredito que isso é fato, mas não quer dizer que não exista discriminação virtual.
Adiante, o curso contextualiza alguns exemplos da realidade do Brasil. Numa perspectiva CTS isso foi show. Porém (sei que existe violência, é, não sei...), mas acredito que haja uma imagem estereotipada também...
No projeto de Inclusão Digital, da Microsoft Brasil, a visão dos cenários de atuação para tais esforços é bem eclética. Rio de Janeiro, em um cenário de morros, barracos, vias estreitas, drogas, polícia, bandidos e tiros, no morro Estácio, um menino de costas para o Pão de Açúcar abraça o Rio de Janeiro. Minutos antes, estava em frente a um computador, cercado de apostilas, decifrando o futuro. Ainda no Rio de Janeiro, num presídio de segurança máxima, um ex-ladrão afirma que agora sabe montar e desmontar um computador. Enquanto isso, conta o tempo que falta para ser solto e sonha com a liberdade. São Paulo, o panorama traçado engloba trombadinhas, trânsito, poluição, favelas, Rio Tietê. Na rua 13 de maio, no bairro do Bexiga, crianças e adolescentes dos bairros Campo Limpo e Jardim Ângela, da periferia paulista, montam no computador um jornal e discutem sexualidade, gravidez na adolescência e outros problemas de suas regiões carentes. Ceará, nessa região assolada pela seca, caatinga, desemprego e emigrantes, os trabalhos voltam-se para a troca de experiências com outras escolas, cujo objetivo é conhecer o Nordeste, depois o Brasil, criando uma corrente de saber.
É, eu acho que essas citações foram um pouco preconceituosas...
Em sequência, o texto traz a questão do impacto que as novas TIC's tiveram na forma como os trabalhadores atuam, em árvore do conhecimento, nos termos de Pierre Lévy. O curso, brilhantemente, cita então Pierre Lévy para defender a visão da EaD. Na perspectiva CTS, isso é importante, porque o professor não será mais o "dono do conhecimento", e passará a interagir, construir-reconstruir com os seus estudantes.
O curso traz uma breve contextualização da EaD (sem muitas emoções) e defende que as novas TIC's facilitam que o educando tenha um leque quase infinito de possibilidades para o seu aprendizado, conforme os seus interesses e as suas necessidades. Novamente, surge aqui a questão da construção-reconstrução do conhecimento. No curso, os autores chegam a denominar essas novas revoluções de pegagogia on-line, e todas as pessoas envolvidas nessas revoluções de comunidade de aprendizagem conectada (legal, né? árvore do conhecimento, inteligência coletiva, cyberespaço, softwares educacionais...).
Outra citação que exemplifica muito bem o caráter CTS:
Os estudantes podem se sentir motivados quando as atividades de aprendizagem são relevantes para eles como, por exemplo, quando necessitam buscar o conhecimento para a construção de um projeto, ou para resolução de problemas de sua prática. Este tipo de atividade pode gerar um sentimento maior de apropriação (ownerslzip) do ensino e aprendizagem, além de encorajá-los à reflexão e ajudá-los a construírem seus próprios significados. Todas essas atividades levam diretamente à necessidade de encorajar a interação com os outros.
Novamente, ao abordar o papel do tutor, o curso denota claramente uma visão CTS, ao afirmar que ele não será um "protetor", "dono da casa", mas sim alguém que facilite a plena ação dos sujeitos, com liberdade para se posicionarem nas interações sociais. O curso chega a denominar isso de modelo de aprendizagem construtivista (construção-reconstrução do conhecimento).
No módulo 3 o que me chamou atenção foi a questão do governo eletrônico. O curso deixou claro que isso é um poder nas mãos do povo. Cabe discutir se isso está, de fato, sendo democratizado. Apesar da desatualização, o curso poderia ter citado outros exemplos. Um bem engraçado:
Portal da transparência, sinmac... o e-gov é muito utilizado.
A aula sobre hackers, vírus... ficou prejudicada demais, porque a contextualização foi muito fraca e praticamente não houveram exemplos. Da mesma forma aconteceu com as duas aulas seguintes, que poderiam versar sobre temas como o marco civil da internet, ergonomia, espionagem americana, novos paradigmas dos crimes cibernéticos, etc. E também sobre o assunto polêmico dos EUA e Coreia do Norte, que afeta o mundo inteiro.
Enfim, o último módulo, que trata do profissional de TI, é interessante quando trata que esse profissional precisa ter em mente as questões éticas (influência da sociedade no uso da tecnologia e da ciência). Bem, enfim, só ceio que aqui (na verdade em todo o curso) deveria ser tomado um cuidado maior com a questão da alienação mercadológica, se a tecnologia vai ser usada em favor das classes dominantes, ou em favor da maioria da população, que se encontra marginalizada.
Cansei...
PINHEIRO, Nilcéia Aparecida Maciel. Ciência, Tecnologia e Sociedade: a relevância do enfoque CTS para o contexto do ensino médio. Ciência & Educação, v. 13, n. 1, p. 71-84, 2007.
PARO, Vitor Henrique. Parem de preparar para o trabalho! Reflexões acerca dos efeitos do neoliberalismo sobre a gestão e o papel da escola básica. 1999.
*pessoal, tem uma parte do texto que está branca, não sei porque, mas é só selecionar que o texto fica destacado e dá pra ler...
.
Enfim, sob a perspectiva CTS, o curso "Tecnologia da Informação e Comunicação" (SENAI-ES) ainda tem a melhorar. Porém, alguns aspectos muito importantes foram identificados no curso, como é o caso do espaço dedicado à apresentação do tema "Democratização da Informação", essencial dentro da perspectiva CTS.
Antes de tudo, entretanto, é preciso ressaltar aqui que o curso tem sua análise voltada para o mercado de trabalho. Poucas vezes foi feita uma análise crítica para questionar os interesses mercadológicos, que funcionam em prol de uma minoria especializada, em detrimento da maioria da população, que não recebeu as condições mínimas para uma formação emancipada (PARO, 1999). Conforme visto anteriormente, numa perspectiva CTS, essa criticidade (não no sentido corriqueiro da palavra) é primordial porque o estudante precisa ser preparado para adotar uma postura emancipada frente aos constantes problemas e desafios que surgem nas relações entre ciência e tecnologia e sociedade.
Outro aspecto que não foi bem abordado no curso sob a perspectiva CTS é a questão da contextualização, em seus diferentes aspectos (social, cultural, político, econômico, ambiental, etc.). Como o curso é muito (super, hiper, mega, ultra) desatualizado, essa questão ficou bastante prejudicada, pois o estudante precisa compreender onde está inserido para, enfim, começar a tomar um posicionamento crítico e construir-reconstruir, em parceria indissolúvel com o seu professor, novas soluções para a sociedade com o uso da ciência e da tecnologia. É preciso acrescentar que a contextualização não acontece apenas em termos gerais (mundo inteiro). Nesse ponto, o curso foi "feliz" ao abordar o nosso país; no entanto, além disso não ser feito de maneira intensa em todos os módulos, não é suficiente para que o estudante compreenda a complexidade da sua realidade, pois os aspectos regionais e locais ficam deixados de lado. Os idealizadores dos cursos EaD devem ter isso em mente e, sempre que possível, precisam intensificar a abordagem desses aspectos.
Apesar de geral, logo na primeira aula do módulo 1 (sistemas de informação), há um "exemplo" de contextualização interessante:
A Tecnologia da Informação e Comunicação (TIC) a cada dia está mais presente na vida cotidiana das pessoas e nos processos produtivos das organizações. Muitas vezes usamos a tecnologia para facilitar nossas atividades sem ao menos perceber que ela existe. Por exemplo, você já imaginou a quantidade de tecnologia empregada nos celulares? Normalmente nós os utilizamos sem parar para pensar nisso.
Como já é sabido que a reflexão é um ponto-chave na perspectiva CTS, essa breve introdução estaria no caminho certo. Estaria... isso porque no restante do módulo essa faísca de criticidade não foi muito bem alimentada, o que tornou o trecho algo desconexo, estancado.
Ainda na primeira aula do módulo 1 os autores do curso colocam um quadro de evolução dos sistemas de informação, desde os anos 70 até os anos 2000 (que velho...). Esse quadro facilita compreender o quanto sociedade e ciência e tecnologia se transformaram reciprocamente ao longo dos anos; porém, aqui a exposição continua a ser ainda num tom corporativista.
Na segunda aula do primeiro módulo, o curso traz uma diferenciação interessante entre os conceitos de dados, informação e conhecimento. Colocar esses pontos desafiadores faz com que o professor e os seus estudantes questionem o que sabem, se realmente aquilo que "aprenderam" faz sentido para eles. No contexto CTS, esse é um processo fundamental de construção-reconstrução dos conhecimentos para a superação em prol de uma nova sociedade.
Ao tratar sobre gestão do conhecimento, é exposta a seguinte citação:
A gestão do conhecimento é um campo multidisciplinar, cujos aspectos envolvem a gestão da informação, a Tecnologia da Informação, a comunicação interpessoal, o aprendizado organizacional, as ciências cognitivas, a motivação, o treinamento e a análise de processos. Trata-se de um enfoque integrado para identificar, capturar, gerenciar e compartilhar todo o ativo informacional das organizações, incluindo documentos, bases de dados e outros repositórios, bem como a competência individual dos trabalhadores (THIVES JR., 2000).
Nessa citação (apesar da confusão com o termo utilizado), está implícito outro ponto importante da perspectiva CTS: a interdisciplinaridade. No ensino, segundo Pires (2008), é buscada a formação integral do educando, que ultrapassa a mera comunicação de metodologias e técnicas entre disciplinas, em busca de uma consciência crítica em relação à ordem das coisas no mundo capitalista. Nesse sentido, a interdisciplinaridade não é um ataque ao conceito das disciplinas, mas sim à prática disciplinar estancada, rígida e fixa.
Muito complicado diferenciar os sistemas de gerenciamento da aula 3... Porém destaquei nessa aula a exemplificação interessante que é feita sobre a indústria automobilística na evolução e aplicação das TIC's.
O módulo 2 foi interessante ao trazer a história sobre a origem do computador. Por outro lado, poderia explorar melhor melhor exemplos da realidade dos estudantes de novos recursos tecnológicos ao abordar os conceitos de hardware e software.
Vejam essa citação engraçada (não estamos mais no futuro, estamos na era do pós-futurismo - curso desatualizado):
No futuro, acredita-se que os aparelhos sem fio serão variados, unindo diferentes dispositivos, dependendo do perfil do seu usuário. Câmera, tocador de música, navegador de Internet, palmtop, poderão ser encontrados em diferentes combinações, por meio de uma equação ainda não resolvida. Algo parecido com o computador transformar-se em um celular devido ao seu tamanho cada vez mais compacto e à sua possibilidade de enviar voz, além de dados ou, no caminho inverso, o celular transformar-se em um pequeno computador, pois estão cada vez mais inteligentes, absorvendo funções variadas.
Na aula 2 desse módulo foi muito importante contextualizar a origem e a história da internet, inclusive no Brasil. Com relação ao bate-papo/grupos de discussão, se estivesse atualizado, o curso poderia ter feito uma explanação interessante a respeito do boom dos novos aplicativos tecnológicos.
E é nesse ponto que quero chegar... aqui acredito que os autores do curso, apesar da falta de atualização, conseguiram demonstrar a perspectiva CTS de maneira mais concentrada, ao tratar sobre a democratização da informação. Primeiro eles começaram tratando da integração que o computador pode facilitar. Isso me lembra a questão da inteligência coletiva e da árvore do conhecimento, de Pierre Lévy. Na citação abaixo isso fica bem interessante:
"No terminal, enquanto mãos de dois ou três meninos estão sobre o mouse, um deles grita: 'já sei como se faz!'. A todos ficam quebrando a cabeça para saber aonde se vai, despertados pelas possibilidades da informática. União. Todos querendo aprender juntos."
A visão de que não adianta ensinar as pessoas o como fazer, mas sim o posicionamento crítico, fica bem explícito abaixo:
Solucionar a exclusão digital não significa somente dar a cada pessoa um computador com acesso à Internet. Mais do que simplesmente ensinar a técnica da informática, o trabalho deve estabelecer pontes para aproximar mundos que, socialmente, encontram-se distantes. Neste horizonte que se descortina é possível vislumbrar o resgate mais importante do exercício da cidadania. A tecnologia, em si, tem o poder de amplificar o conhecimento. Pode também ampliar a diferença social em função da falta de acesso da população menos favorecida aos recursos tecnológicos. Por isso a necessidade de um trabalho consistente para evitar um cenário social com diferenças ainda maiores.
Logo em seguida, o curso apresenta o fato de que algumas discriminações são deixadas de lado no mundo virtual, pelo fato de os usuários serem mais conhecidos por suas mentes do que por suas características físicas externas. Bem, acredito que isso é fato, mas não quer dizer que não exista discriminação virtual.
Adiante, o curso contextualiza alguns exemplos da realidade do Brasil. Numa perspectiva CTS isso foi show. Porém (sei que existe violência, é, não sei...), mas acredito que haja uma imagem estereotipada também...
No projeto de Inclusão Digital, da Microsoft Brasil, a visão dos cenários de atuação para tais esforços é bem eclética. Rio de Janeiro, em um cenário de morros, barracos, vias estreitas, drogas, polícia, bandidos e tiros, no morro Estácio, um menino de costas para o Pão de Açúcar abraça o Rio de Janeiro. Minutos antes, estava em frente a um computador, cercado de apostilas, decifrando o futuro. Ainda no Rio de Janeiro, num presídio de segurança máxima, um ex-ladrão afirma que agora sabe montar e desmontar um computador. Enquanto isso, conta o tempo que falta para ser solto e sonha com a liberdade. São Paulo, o panorama traçado engloba trombadinhas, trânsito, poluição, favelas, Rio Tietê. Na rua 13 de maio, no bairro do Bexiga, crianças e adolescentes dos bairros Campo Limpo e Jardim Ângela, da periferia paulista, montam no computador um jornal e discutem sexualidade, gravidez na adolescência e outros problemas de suas regiões carentes. Ceará, nessa região assolada pela seca, caatinga, desemprego e emigrantes, os trabalhos voltam-se para a troca de experiências com outras escolas, cujo objetivo é conhecer o Nordeste, depois o Brasil, criando uma corrente de saber.
É, eu acho que essas citações foram um pouco preconceituosas...
Em sequência, o texto traz a questão do impacto que as novas TIC's tiveram na forma como os trabalhadores atuam, em árvore do conhecimento, nos termos de Pierre Lévy. O curso, brilhantemente, cita então Pierre Lévy para defender a visão da EaD. Na perspectiva CTS, isso é importante, porque o professor não será mais o "dono do conhecimento", e passará a interagir, construir-reconstruir com os seus estudantes.
O curso traz uma breve contextualização da EaD (sem muitas emoções) e defende que as novas TIC's facilitam que o educando tenha um leque quase infinito de possibilidades para o seu aprendizado, conforme os seus interesses e as suas necessidades. Novamente, surge aqui a questão da construção-reconstrução do conhecimento. No curso, os autores chegam a denominar essas novas revoluções de pegagogia on-line, e todas as pessoas envolvidas nessas revoluções de comunidade de aprendizagem conectada (legal, né? árvore do conhecimento, inteligência coletiva, cyberespaço, softwares educacionais...).
Outra citação que exemplifica muito bem o caráter CTS:
Os estudantes podem se sentir motivados quando as atividades de aprendizagem são relevantes para eles como, por exemplo, quando necessitam buscar o conhecimento para a construção de um projeto, ou para resolução de problemas de sua prática. Este tipo de atividade pode gerar um sentimento maior de apropriação (ownerslzip) do ensino e aprendizagem, além de encorajá-los à reflexão e ajudá-los a construírem seus próprios significados. Todas essas atividades levam diretamente à necessidade de encorajar a interação com os outros.
Novamente, ao abordar o papel do tutor, o curso denota claramente uma visão CTS, ao afirmar que ele não será um "protetor", "dono da casa", mas sim alguém que facilite a plena ação dos sujeitos, com liberdade para se posicionarem nas interações sociais. O curso chega a denominar isso de modelo de aprendizagem construtivista (construção-reconstrução do conhecimento).
No módulo 3 o que me chamou atenção foi a questão do governo eletrônico. O curso deixou claro que isso é um poder nas mãos do povo. Cabe discutir se isso está, de fato, sendo democratizado. Apesar da desatualização, o curso poderia ter citado outros exemplos. Um bem engraçado:
Portal da transparência, sinmac... o e-gov é muito utilizado.
A aula sobre hackers, vírus... ficou prejudicada demais, porque a contextualização foi muito fraca e praticamente não houveram exemplos. Da mesma forma aconteceu com as duas aulas seguintes, que poderiam versar sobre temas como o marco civil da internet, ergonomia, espionagem americana, novos paradigmas dos crimes cibernéticos, etc. E também sobre o assunto polêmico dos EUA e Coreia do Norte, que afeta o mundo inteiro.
Enfim, o último módulo, que trata do profissional de TI, é interessante quando trata que esse profissional precisa ter em mente as questões éticas (influência da sociedade no uso da tecnologia e da ciência). Bem, enfim, só ceio que aqui (na verdade em todo o curso) deveria ser tomado um cuidado maior com a questão da alienação mercadológica, se a tecnologia vai ser usada em favor das classes dominantes, ou em favor da maioria da população, que se encontra marginalizada.
Cansei...
PINHEIRO, Nilcéia Aparecida Maciel. Ciência, Tecnologia e Sociedade: a relevância do enfoque CTS para o contexto do ensino médio. Ciência & Educação, v. 13, n. 1, p. 71-84, 2007.
PARO, Vitor Henrique. Parem de preparar para o trabalho! Reflexões acerca dos efeitos do neoliberalismo sobre a gestão e o papel da escola básica. 1999.
*pessoal, tem uma parte do texto que está branca, não sei porque, mas é só selecionar que o texto fica destacado e dá pra ler...
.